Nos últimos dias joguei bastante o Fortnite e fiquei observando o funcionamento da loja de itens cosméticos do jogo, que tem um sistema de tempo onde algumas roupas ficam disponíveis para compras. Antigamente achava que era um absurdo alguém gastar tanta grana dentro do sistema, mas a Epic Games bolou um sistema de “rodízio”, que tenta “incentivar” os jogadores a comprarem uma skin com medo de não ter essa oportunidade novamente. Por exemplo, dias atrás eles fizeram uma parceria com a NFL e disponibilizaram roupas com uniformes e muitas opções de customização de números, mas eram skins caras, custando o equivalente a 45 a 50 reais cada uma. As roupas ficaram disponíveis para compra por 2 dias e depois ficaram indisponíveis, pois a loja rotaciona os itens (similar a um rodízio) e eles acabaram botando outras skins/emotes lá.

Até aí tudo bem, você não precisa gastar 1 centavo no jogo (que é gratuito) e pode simplesmente deixar pra lá e ignorar boa parte das skins, mas tente imaginar, por exemplo, da questão de uma criança que quer acompanhar os amigos e adquirir a mesma roupa, ainda mais se ele tiver “amigos” de famílias com poder aquisitivo maior. As chances dela comprar (ou tentar comprar) a roupa dentro do jogo é enorme e se os pais deixarem o cartão de crédito cadastrado dentro da loja (por exemplo, na PSN), ele pode ir adquirindo os V-Bucks a cada compra, gerando um círculo vicioso que pode render um rombo financeiro no final do mês.

– Nossa essa skin é bacana, pegou onde?
– Ah, eu comprei na loja hoje, meu pai comprou pra mim.
– Quanto é? Ah, vou comprar também, não deve tão caro…

Com a Epic Games lançando skins com uma frequência enorme, a loja é atualizada constantemente a cada novo update. Tirando o passe de batalha, que você consegue ver cada recompensa e vai liberando ela dentro do jogo (ou você compra categorias por 150 V-Bucks cada), aqui dá a sensação de que se você não aproveitar o momento pode acabar não tendo outra chance, e já vi skins anteriores voltando à venda por lá, mas nunca roupas temáticas. Ainda assim é um risco enorme você ceder aos pedidos de um filho, comprar apenas 1 roupa e deixar os dados gravados, ou ele pedir depois pra você comprar uma nova roupa, e assim sucessivamente.

Loja de Fornite no PS4

Decidi então dar uma olhada nas skins que estavam na loja nas últimas semanas e fiz uma simulação. Na escolha de 6 skins que eu potencialmente compraria, totalizaria 9500 V-Bucks. O pacote mais caro da PSN Store, com 13500 (10 mil V-Bucks, mais os bônus), é vendido a R$ 306,90 (!!!). Um valor surreal e que pode gerar um enorme descontrole, o que pode ser pior se você for apenas adicionando a cada vez. “Ah essa skin é daora, vou só pegar ela”, e lá vai 60 reais, e na outra semana mais 60, na outra mais uns 100 reais e você tem praticamente o valor que poderia usar num “Red Dead Redemption 2” ou num “Assassin’s Creed: Odyssey”, que são bem mais interessantes e rendem muitas horas de jogo. Até a edição parruda de Destiny 2: Renegados sairia mais em conta, e nem jogos como o League of Legends ou o Overwatch (que também tem apelo de microtransações) tem sistemas assim. Pelo menos no Overwatch dá pra conseguir todas as skins sem precisar comprar caixas cosméticas (apesar de demorar bastante pra elas caírem eventualmente)

Mas se o console estiver com o cartão de crédito gravado e setado pra não pedir código de segurança, uma criança pode sair comprando desenfreadamente quase tudo na loja, e o gasto passar facilmente de R$ 1000 reais ao mês. Se a pessoa tiver um poder aquisitivo alto pode não ser tanto problema, mas dependendo de como está a sua situação financeira esse valor pode fazer muita falta. E com novas skins sendo lançadas continuamente para ajudar o jogo a se manter, a Epic conseguiu uma grana enorme com micro-transações, e os concorrentes estão começando a sofrer com isso, tanto com jogadores jogando todos os dias, pois muitos migraram do Overwatch e do Destiny pro Fortnite.