Hoje o streaming se tornou um negócio que, junto com a indústria de games, movimenta milhões de dólares em todo o mundo, com todo mundo querendo um lugar ao sol. Desde os jogadores que querem seguir carreira jogando (o que não é nem um pouco fácil no começo), além da concorrência entre os principais sites, que sempre estão tentando chamar quem já tem audiência, e assim conseguir ainda mais audiência, resultando em mais exibições de propagandas.

Nesta semana o segmento teve uma surpresa após o anúncio do Ninja, que foi pro Mixer, serviço de streaming do Xbox/Microsoft. Até então ele era o maior streamer da Twitch, com 14 milhões de assinantes, e sua popularidade aumentou bastante com o Fortnite, da Epic Games. Os eventos que ele fazia com o Drake e o Neymar, que também ajudaram a popularizar o battle royale da Epic, ou mesmo ele fazendo uma live comemorativa no final do ano direto do Times Square, em parceria com a Epic Games, movimentaram muitos espectadores de Fortnite, rendeu uma grana extra com a Epic com uma skin, etc.

Mas o movimento dessa semana, com ele indo pro Mixer, foi algo surpreendente. O que mostra que a Microsoft e o Xbox querem firmar o serviço como um dos mais usados pelos jogadores, e talvez seja um movimento pra tirar mais streamers dos concorrentes.



Hoje em dia temos uma divisão entre os streamers comuns, que começam sem ter tantas visualizações, e os parceiros, que tem mais vantagens na plataforma e conseguem monetizar as suas lives. Os principais são a Twitch, o Facebook Gaming (que teve uma parceria com a ESL e eles até compraram os direitos de transmissão de torneios de esportes tradicionais, como a Libertadores) e o Youtube. No caso do Youtube, o Google tem o Adsense, mas simplesmente não faz esforço algum pra emplacar nesse mercado, talvez por não precisar e continuar recebendo vídeos a todo instante. E com isso é raro ter incentivos pra quem quer começar a fazer lives. Não existe um sistema de descoberta similar à Twitch e que seja amigável, o sistema de Content ID é potente o suficiente que acaba prejudicando bastante o canal da pessoa, e ainda tem questões relativas ao algoritmo, gerando reclamações dos usuários.

Para o Facebook, muitos reclamam da plataforma, do alcance cada vez menor das publicações (ter 50 pessoas vendo um post seu na timeline, de 5 mil curtidas, é ridículo), não há tantos recursos como tem na Twitch (que aos poucos acabou ganhando também recursos de redes sociais) e as lives tem limite de resolução. Desanimador ter de fazer uma live em 720p, apesar de que muitos espectadores acompanham pelo celular. Ou mesmo num Facebook com mais de 100 mil curtidas e mal ter espectador na live, chegando, com alguma sorte, com 10 ou 20 pessoas.

Já a Twitch tem algumas questões: por eles já serem os maiores, não importa muito a questão de ter streamers migrando de plataforma, aliado a questões de que a vida de streamer acaba sendo um pouco insalubre. Pois você tem de fazer lives o tempo topo, muitas horas por dia, e ter carisma suficiente para incentivar as pessoas a continuarem assistindo você. E ter isso constantemente, até depois de 6 a 10 horas de lives praticamente ininterruptas é bem difícil.

Aí acaba sendo uma vida bem instável por ponto de vista de quem está começando agora. às vezes o streamer consegue ir bem no canal do Youtube, e começa a ter assinaturas da Twitch Prime, conseguindo chegar ao seu sustento, mas dependendo do mês pode ser bem complicado, e você acaba virando de certa forma um escravo de si mesmo. Se o canal for bem pra você conseguir receber do Adsense, sem ter tretas com a plataforma (desde o ContentID, que tem muitas fraudes e gente tentando monetizar bizarrices, como sons de fundo, e até você contestar isso acaba virando um dor de cabeça extra) você até que pode conseguir ter uma vida confortável e ter tempo livre off-jogo.

E aí que chegou num ponto que vi alguns comentarem, da migração do Ninja. Se você não tem algo com valor fixo, você tem de se matar, e por mais que tenha as questões de patrocínio, você tem de continuar em alto nível. Lives contínuas, ser você não for bem pode acabar impactando na sua qualidade de vida e no seu rendimento financeiro. Por mais que a Microsoft tenha oferecido uma bolada pro Ninja (e provavelmente ele já está com a vida ganha), o que também pode ter pesado são os planos futuros da plataforma crescer e a liberdade dele poder fazer as suas lives sem ele se matar. Ter tempo livre sem pressões, e qualidade de vida, algo que ele poderia até ter na Twitch, mas talvez impactaria no seu rendimento (mas é difícil dizer se a Twitch forçaria ele com as lives).

Hoje em dia o “crunch” se tornou um dos principais assuntos na área de games. Da qualidade de vida dos desenvolvedores ser exaurida para se manter num trabalho. Rockstar, a própria Epic com o Fortnite (onde muitos acabam trampando além da conta até pra não virar a ovelha negra e jogar carga extra de trabalho para um colega de trabalho da Epic) e outras desenvolvedoras que acabam apelando pro crunch pra finalizarem os jogos, e ainda assim nunca são finalizados, principalmente com o “games at service”, com conteúdos constantes e correções/balanceamentos.

Para a área de streaming, a mudança de sua maior estrela de plataforma sinaliza que a Twitch terá de ter condições melhores para quem chegar ao ponto de conseguir mover muita gente para as suas lives. Para a Mixer, acaba sendo algo que irá ajudar não apenas o serviço de streaming, mas o Xbox como um todo: com o Ninja jogando posteriormente games do Xbox Game Pass, isso pode incentivar os jogadores a assinarem o serviço, ou mesmo comprar o console.

É um marketing poderoso, numa época onde a Microsoft consegue fazer sucesso com o Game Pass: com os seus principais lançamentos saindo para os assinantes (como o futuro Gears 5, e jogos como o Forza Horizon 4), mais as produtoras parceiras, ter o Ninja jogando esses jogos será de grande ajuda.

Mas também ele pode acabar focando mais no Fortnite mesmo.

De qualquer jeito, vamos ver como que será no futuro. Para o streamer, ter uma plataforma confiável que ajude ele a pagar as contas sem se matar pode se o diferencial, mas os sites vencerem a Twitch será bem difícil. A Twitch conseguiu meio que se tornar também uma rede social com o chat dos streamers, os emojis exclusivos e recursos de interatividade, além da Twitch Prime com os jogos e os itens cosméticos exclusivos.

A Microsoft está disposta a investir bastante no Mixer e pode ser só o começo pro serviço crescer, ainda mais em uma época onde está sendo mais interessante pras produtoras investirem neles para divulgação. O evento recente de revelação do multiplayer de Call of Duty: Modern Warfare, com a Activision pagando viagem pros streamers testarem o jogo em primeira mão, saiu mais barato do que eles pagarem por propaganda de outras plataformas. Mais gente assistindo e que certamente foi convertida na pré-venda do game. Com mais concorrência nos serviços de streaming, mais recursos e interatividade com os jogadores, mas ainda tem sempre a questão da monetização: quem oferecer as melhores propostas vai ganhar o streamer, mas acaba sendo complicado pra muita gente que não gosta de outra plataforma concorrente, e aí ou a pessoa muda de streamer, ou ela acaba indo pra onde está ele.

Ninja no Lollapaloza
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