Fazer uma análise de um game nos dias de hoje, com tantos gostos e tantas opiniões diferentes por aí não é das tarefas mais simples, em se tratando de um clássico com quase 25 anos de história então a coisa fica ainda mais complicada.

Contudo vez que outra surge um desses games que requerem que corramos alguns riscos em nome de fazer juz a obra, especialmente nesse caso em que algumas mistificações e mal interpretações andaram correndo pela web.

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Castlevania: Lords of Shadow em uma descrição simples é um game de ação/aventura, onde o game une o estilo hack/slash de God of War com as locações ao estilo de Uncharted com umas pitadas de Shadow of the Colossus contado pelo estilo de narrativa emprestado de Metal Gear e embalado por uma trilha sonora orquestrada forte e bem gravada.

Descrevendo dessa forma parece um título pouco original, e essa discussão aflorou pelos reviews e fóruns afora. Uma das motivações de escrever esta análise foi justamente o desejo de desmistificar essa imagem. “Castlevania: LOS” é um título bastante original, com uma história bem contada e bem estruturada, cenários belíssimos, ação na medida certa, puzzles sem exageros e muitos “boss battles” o que é um dos pontos altos do game. Chama atenção como as características do jogo são bem exploradas, ou seja, o jogo não é centrado na ação ou na exploração ou mesmo em puzzles de forma que esses elementos ficam bem distribuídos. As quase 20 horas de jogo estão divididas em mais de 40 níveis pequenos que dificilmente irão cansar o jogador que pode parar a qualquer momento e continuar do último checkpoint ao voltar a jogar.

O game foi desenvolvido pela espanhola Mercury Steam (Clive’s Barker JERICHO) em conjunto com nada menos do que a Kojima Productions (Metal Gear Solid 4). Segundo o produtor David Cox a princípio o personagem principal (Gabriel Belmont) seria apenas um bárbaro, foi a ajuda do próprio Hideo Kojima que transformou o bárbaro em um personagem muito mais profundo e enigmático dando profundidade a história que é envolta em temas como amor, compaixão e a eterna luta entre a luz e as trevas.

Gabriel Belmont é um cavaleiro da irmandade da luz, que tem o objetivo de combater o mal no mundo. No ano de 1047 Gabriel é enviado a uma pequena vila a procura de um Fauno, guardião do “lago do esquecimento” que permite a comunicação com os mortos, pois os anciões da sua ordem receberam mensagens através de sonhos com a falecida mulher de Gabriel, que diz que a ordem deve procurar por este guardião e pedir ajuda contra o mal que assola o mundo. A principal motivação de Gabriel é justamente a perda de sua amada Marie, assassinada pelas criaturas das trevas em circunstâncias um tanto obscuras.

Ao longo do caminho Gabriel encontra alguns aliados, o principal deles é Zobek que é da mesma irmandade da Luz e ajuda Gabriel em sua jornada. Muito da história é narrada por Zobek entre as fases do jogo durante o período de loading que normalmente termina antes do término das narrativas.

Mas o que tudo isso tem a ver com Castlevania? Onde está o Drácula e o próprio Castlevania, o castelo com vida própria que dá título ao jogo?

Na verdade Castlevania: Lords of Shadow é um reboot total da série Castlevania, o que equivale a dizer que os 17 games da franquia “caíram por terra” e a partir de agora começa tudo do zero, o que permite que quem nunca jogou o jogo da série que teve inicio em 1986 no NES possa começar por este sem maiores problemas. Embora alguns fãs mais ferrenhos não tenham gostado muito da ideia. Quanto ao Drácula e ao castelo em si, este pretende ser um review “spoiler-free” ou seja, só jogando para saber. Uma das formas de se saber mais acerca dos detalhes da história é lendo todos os pergaminhos encontrados durante o jogo junto a soldados mortos que estão espalhados ao longo dos cenários.

Alguém diz para a Stephenie Meyer que isso é um vampiro de verdade

As batalhas são bem balanceadas e embora o estilo lembre muito o Hack/slash de God of War, não se engane, Gabriel não é o Kratos e apertar o botão de ataque indefinidamente não vai fazer com que você termine o game nem mesmo no nível fácil. Para avançar você vai precisar dominar as artes da defesa e da esquiva antes de qualquer coisa e isso vai fazer com que sobreviva, mas não com que triunfe. Para triunfar sobre as trevas é necessário utilizar de uma vasta gama de combos, armas secundárias como adagas, água benta e até fadas da floresta, além de saber dosar o uso de magia da luz e das trevas que te dão vitalidade ou maior força além de destrancar novos combos combinando magia e esses itens secundários.

Castlevania conta com 4 níveis de dificuldade: “Squire” (fácil), “Warrior” (médio), “Knight” (difícil) e “Paladin” (muito dificil). Apesar da divisão, também enganam um pouco já que na real, pelo menos na primeira vez, todos eles são difíceis. Eu joguei no “Warrior” apanhando e sempre me perguntando como seria no “Paladin”. As melhores partes do game com certeza são as “Boss Battles” e não são poucas. Chefes de fases de todos os tamanhos e estilos, alguns difíceis, outros nem tanto. Nada que vá trancar um jogador experiente por muito tempo, mas também nada que chegue a ser sem graça por ser fácil demais. Além dos chefes de tamanho normal (algo que vai dos 2 aos 4 metros de altura) há também os titãs que são monstros colossais do tamanho de um prédio, herança de uma civilização antiga. Esses monstros (são poucos) devem ser escalados e atacados em pontos vitais, bem ao estilo “Shadow of the Colossus”, uma ótima oportunidade para aqueles que sempre se perguntaram como ficaria o clássico do PS2 nas gerações atuais de consoles.

Outro ponto alto do jogo é quanto ao nível de detalhes dos cenários. Todos, sem exceção são belíssimos e foram muito bem trabalhados. Em muitos pontos dá vontade de usar o direcional o mais suavemente possível para que o personagem ande mais devagar permitindo que se possa apreciar os cenários. Nos mais abertos os efeitos de ambiente como chuva e neve são um show a parte usando muito bem a capacidade dos consoles atuais. Alguns cenários são gigantes e bem elaborados de forma que permitem um estilo de plataforma nos moldes de Uncharted através de escaladas, pulos, subidas e descidas em paredes de castelos e encostas. Nessa parte de exploração alguns podem notar pequenos defeitos na jogabilidade aqui e ali, nada que vá irritar os mais nervosos mas não chega a ser uma nota 10 em jogabilidade por causa disso. No geral o percurso é bem linear exceto por pequenas rotas alternativas aqui e ali que recompensam com algum item ou pela possibilidade de se voltar aos níveis anteriores para se buscar um item que na primeira passada ficou para trás ou era inalcançável.

A câmera não é “controlável” ajustando-se automaticamente a posição do jogador, normalmente de forma a obter o melhor ângulo sendo alguns muito bem explorados. Contudo em alguns pontos poderia melhorar, dificilmente atrapalhando já que na maioria das vezes fica a certa distância do jogador contudo em uma cena específica eu simplesmente tranquei no jogo por não saber para onde ir porque a câmera não mostrava que havia uma passagem a direita do personagem. Foi talvez o único momento no qual eu realmente me decepcionei com o level design do jogo.

A trilha sonora, composta por Óscar Araujo é soberba. Cem por cento das composições são orquestradas esquecendo um pouco do estilo que a série vinha tomando deste “Symphony of the Night” com trilhas mais elétricas. O próprio Óscar andou comentando que para a sequência (?) do jogo a Konami já solicitou uma trilha ainda mais forte abrindo ainda mais a distância entre esta nova fase da série e o lado mais “colorido” que a série estava tomando, especialmente nos títulos para o Nintendo DS. Os efeitos sonoros são convincentes e bem produzidos complementando a boa ambientação dos cenários.

No aspecto técnico, o jogo roda praticamente idêntico nas suas duas versões (Xbox 360 e PS3) com taxa de atualização de 30 quadros por segundo em média, baixando essa taxa em alguns momentos o que demonstra que ele usa muito da capacidade dos consoles mas nada que chegue a dar dor de cabeça.

Para terminar, Quando a Konami anunciou que iria “rebootar” a série Castlevania com seu novo título em 3D para os consoles da geração atual (PS3/Xbox360) assim como muitos, eu fiquei apreensivo. Não tinha gostado muito da última versão em 3D “Curse of Darkness” para PS2/XBox mas as versões 2D estavam na minha opinião em um caminho ainda pior. A série já vinha perdendo identidade desde o “Castlevania X” do PCEngine, perda essa que culminou em versões “niponizadas” ou “mangánizadas” de uma série que começou num estilo bem ocidental mesmo tendo sido criada por japoneses. Não tenho nada contra os mangás, mas em minha opinião simplesmente não fechava. Sendo que o grande clássico pra mim não foi o “Symphony” mas o “Super Castlevania IV” que por sua vez é um remake da versão original do NES. “Castlevania: Lords of Shadow” veio para resgatar esse estilo ocidental e quem diz que a série perdeu a identidade com este game é porque não conhece de fato a série, provavelmente tendo tido o primeiro contato com a mesma já no “Symphony of the Night” que já não tinha mais muito em comum com o original.

E não querendo desmerecer este que é com certeza um dos melhores games do PSOne e um dos melhores da série. Outra injustiça que anda rolando por aí é que este seria mais uma cópia de Gof of War. Bem, God of War é indiscutivelmente um dos melhores games da atualidade, contudo ele também é uma junção de vários elementos já consagrados ao longo dos tempos, muitos deles criados pela própria série Castlevania. Quem jogou o Lamment of Innocence do PS2 sabe que combos com correntes em 3D não são uma criação do God of War. Resumindo, Lords of Shadow para mim “rebootou” com grande sucesso essa série sendo com certeza forte candidato ao melhor jogo de ação de 2010. Pra mim o único ponto fraco é que não roda em 60fps constantes mas é um preço pequeno por um game tão detalhado. O jogo termina de forma épica deixando um grande pano de fundo para continuações e muita vontade de jogar uma sequência. Que venha o próximo!

Dica: Deixe rolar os créditos no final do jogo.

Só para constar: Isso é um Castlevania Clássico!