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Lembram que algum tempo atrás a gente comentou sobre os Pong Reviews? Então! Depois de algumas semanas terminamos o primeiro e para aproveitar o hype que foi sobre o site de Hideo Kojima, conseguimos terminar a tempo. Então segue o primeiro duplo-review da história do Select Game, mas, diferente dos reviews da EGM/EGW, aqui eu e o Gustavo nos alternamos pra comentar sobre o melhor game do Playstation 3 até o momento: Metal Gear Solid 4! Sem mais enrolação, segue a análise do mesmo aqui no blog.

Introdução

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Rodrigo Flausino: A primeira coisa que está na minha mente no momento que escrevo este parágrafo é: como começar uma análise de Metal Gear Solid 4? Como começar a falar de um dos melhores games do console e um dos poucos que fazem valer a pena a aquisição de um produto tão caro como um Playstation 3? Estado da arte no console. O encerramento de uma das séries de games mais vitoriosas de todos os tempos. Um enredo complexo e cinematográfico. Ação de tirar o fôlego. E finalmente podermos ver que a Konami conseguiu, com maestria, sanar alguns problemas dos Metal Gear Solid anteriores, mesmo sabendo que eles são games praticamente perfeitos. O primeiro nem precisa dizer: é o melhor game do primeiro Playstation, definindo rumos da indústria dos videogames e elevando o nome de Hideo Kojima no seleto grupo dos desenvolvedores-gênio da indústria, mesmo sabendo que num desenvolvimento de uma obra desse porte tem uma equipe talentosa por trás disso. E um dos games que iniciou a era dos jogos cinematográficos, com cenas de ação de tirar o fôlego e enredo envolvente. Um divisor da indústria dos jogos.

Gustavo Vasconcelos: Okay, acho que essa é a hora em que cabe um aviso: o Flausino terminou o jogo depois de mim e ainda está naquele estado de euforia pela liberação descontrolada de serotonina. Ao que parece vai cair sobre mim a obrigação de ser o “bad cop” dessa análise (se isso for possível). MGS4 foi um daqueles jogos que fazem um console vender, algo como Killzone 2 e os futuros Final Fantasy XIII e God of War III. Lançado exclusivamente para PS3, assustou quando foi publicado que usaria 100% da capacidade do BD (Bluray Disc). Mas MGS4 é realmente tudo aquilo que dizem? Sim, é. E iremos mostrar o porquê.

Flausino: apenas uma observação antes: não testamos a parte online (Metal Gear Online). Até comentei com o Pablo Raphael e ele disse que o jogo é bem diferente deste Metal Gear e que não teria problema não comentar sobre esse jogo. E também vamos precisar de pelo menos 1 mês pra testar e jogar com calma, o que atrasaria mais este texto.

Gráficos e efeitos sonoros

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Gustavo Vasconcelos: “Estamos utilizando a engine do Cell no limite, verdade seja dita” [ComputerAndVideogames.com]. É uma frase que assusta, ainda mais considerando que foi dita ainda em 2005, quando o PS3 nem tinha visto a luz do dia, comercialmente falando. 6 CPU’s de última geração no limite e 100% da capacidade de uma mídia concebida para sistemas de altíssima definição e nenhum dos dois estava no mercado ainda? Corram para as colinas! MGS4 estava destinado a lançar oficialmente a sétima geração de vídeogames.

Flausino: Quando vi o anúncio do Metal Gear Solid 4 eu fiquei horas vendo as 2 imagens iniciais: uma do Snake velho e uma do Otacon, numa sala parecida com um escritório. Naquela época a minha única referência de gráficos era o primeiro Splinter Cell (onde joguei no PC), que ficaram um pouco ultrapassados depois que vi este Metal Gear. Não tinha um Playstation 2 e jogava pouco no PC. Isso me animou com a geração atual dos consoles e vi que poderia ser possível chegar quase a uma CG jogável. Depois que foram saindo os primeiros trailers eu não acreditava no que via: o poder do Playstation 3 nesse jogo é imenso. Não existem CGs estilo Final Fantasy VII/VIII/X/XII e que foram pré-renderizadas usando estações de trabalho. Todas as animações interativas eram feitas usando os próprios gráficos do console, o que ainda é mais impressionante neste jogo. Isso estava desde o primeiro Metal Gear e para mim a Konami fez muito bem em ter continuado com esse estilo de arte para os games da série.

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Gustavo: Minha experiência própria: estava eu indo para o segundo ato, e assistindo ao briefing. Tinha uns indicadores estranhos na tela e comecei a apertar os botões. CARACAS, isso não foi pré-renderizado! Meu deus, isso é ingame! Eu posso mudar a câmera, andar com ela! Nesta noite eu dormi abraçado com meu PS3. Em toda “cutscene” do jogo (entre aspas porque, como foi dito, não é bem uma “cut”-scene) é possível interagir de alguma forma. O jogo a todo momento quer provar para você que está renderizando em realtime. É até fácil falar tanto dos gráficos que se esquece de falar do áudio. A questão é que ambos são complementares: uma explosão que joga areia em cima de você não é perfeita se você não sentir seu esôfago tremer no processo. E MGS4 tem os dois. Minha frustração é ter comprado o home theather depois de ter zerado o jogo. Tenho que pegar de volta (emprestado com um amigo) e fazer tudo de novo em Dolbi 5.1.

Flausino: Nesse ponto eu não pude aproveitar com 100%. Como não tenho tanta grana, o meu PS3 está numa TV comum, mas com possibilidade de usar cabo de vídeo-componente, o que melhora sensivelmente a qualidade das imagens do jogo. No som, também, fora que algumas vezes tive de jogar de madrugada com volume baixo para não incomodar ninguém. Aliás, na parte técnica o Metal Gear Solid dá um show sem precedentes. A parte sonora é ultra-realista com explosões a todo momento. A sensação de estar na guerra é praticamente real e isso você vê logo no começo. Nos primeiros 10 minutos com o jogo rodando o enredo te joga numa rua onde grupos militares (os PMCs) se enfrentam, com tiros, explosões, como numa guerra atual. Um problema de muitos games (como o Fallout 3) é que demora um pouco pro jogo engrenar. Aqui não: logo de cara você já parte para a ação, como no primeiro God of War, onde você é jogado num navio e tem de aprender rapidinho como controlar o personagem. Se você vacilar, a situação complica pro seu lado.

Estória

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Gustavo: É IMPOSSÍVEL analisar a história de Metal Gear completamente.Tudo começa em 19-e-guerra-fria, com nosso o herói e vilão Naked Snake. Para se ter uma idéia, um dos itens disponíveis para download na PSN é um “jogo” chamado Metal Gear Database, uma enciclopédia completa com todos os eventos da série Metal Gear. Para quem quer conhecer o MGS4 mas tem medo de ficar perdido, fica a dica. E não se preocupe quanto a spoilers, o Metal Gear Database (disponível gratuitamente na PSN) oculta todos os itens que só foram revelados no MGS4, se você não tiver um savegame do jogo com ele finalizado.

Correndo o risco de ser simplista, MGS4 acontece em um futuro distópico e assustadoramente plausível (que é uma continuação do segundo game da série principal). Exércitos de aluguel tratam batalhas por procuração (proxy battles), e o mundo gira através de uma “economia da guerra”. Não é algo muito diferente do que os EUA fazem hoje em dia, apenas numa escala maior. Neste cenário de 2014, o ex-Solid-atual-Old Snake recebe a localização de seu arquiinimigo Liquid Ocelot, e parte para o Oriente Médio para tentar capturá-lo (ou matá-lo, o que for mais fácil). É aí que o jogador passa a entender como funciona a economia da guerra, e como todos os soldados no campo de batalha são monitorados por um sistema de nano tecnologia conhecido como Sons Of The Patriots. E eu vou enforcar o Flausino com as próprias tripas por ter falado mal de Fallout aí em cima.

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Flausino: Não entendo porquê o Fallout 3 é tão bom e tals…OK, OK, vou tentar gostar do jogo, caso eu consiga ver o mesmo rodando…eahuaeheauheauhe. Voltando à parte séria, como o Gustavo disse, é a economia da guerra. Pessoas acabam dependendo da guerra pra sobreviver, negociantes de armas aparecem a torto e a direito…na verdade aparece apenas um, que considero um dos melhores personagens da saga: Drebin.

Um cara com estilo! Você chega no local e ele aparece com aquele jeito malandro e manso, oferecendo um rifle melhor e explicando como funciona os nano-robôs e o esquema de armas com código de identificação. Toda arma vem com um código de identificação onde o Snake pode não poder usar a mesma, cabendo ao Drebin liberar a arma. Essa liberação não é de graça e isso custa Drebin Points, que são pontos que você adquire ao coletar armas na localidade além de matar inimigos diversos. Esses pontos também podem ser usados para comprar armas e munição. Sim, sei que essa mecânica de jogo deveria ser explicada em outra seção, mas isso faz parte do enredo: como os soldados carregam nano-máquinas em seus corpos, então pode ser que eles não consigam usar todas as armas disponíveis no campo de batalha. Então cabe ao Drebin limpar a sujeira-nano para que o Snake possa usar a arma. Pode pareces estranho à primeira vista, mas acaba sendo bem realista (como ter uma arma que pra destravar tem de colocar o dedão do polegar, com a sua digital).

Jogabilidade

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Gustavo: A série Metal Gear nunca foi um jogo casual. E como tal, requer dedicação para desfrutar de todas as nuances que esta nos apresenta. Eu levei 48h de jogo para terminá-lo, mas conheço pessoas que o fizeram em 16h, o que eu considero um absurdo e um desrespeito com os desenvolvedores. É como usar um Cabernet Sauvignon para fazer sangria e virar o copo em dois goles. A jogabilidade é estável e coerente, mas requer prática. Como é tudo muito realista e este é um Metal Gear, qualquer tentativa de virar John Rambo vai resultar em Otacon gritando no CODEC: “Snake! Snake!!! Snaaaaaaaaaake!!!” (a.k.a. Morte). MGS4 é, antes de tudo, um jogo de espionagem (Tactical Espionage Action) e a progressão deve ser cuidadosa, lenta, uma arte por assim dizer. Como os movimentos são extremamente realistas, os controles são inevitavelmente complexos, mas após a fase de adaptação a coisa se torna fluída e a imersão maior.

Uma característica interessante é a presença da “barra de psiquê”, que indica, basicamente, o estado psicológico de Old Snake. Em momentos de combate intenso, mesmo você estando escondido, o barulho das bombas caindo e tiros zunindo de um lado para o outro começam a afetar nosso herói, que sente os efeitos na forma de perda de precisão e lentidão. Curiosamente você pode acender um cigarro para restaurar a psiquê, ao custo de sua saúde.

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Flausino: Os comandos são basicamente os mesmos dos primeiros games, mas com algumas adaptações e algumas inovações. O quadrado serve para abrir portas, mas como só me dei conta disso depois de umas 12 horas de jogo, nem adiantava, já que as localizações não davam mais para abrir as portas (estavam travadas). O X serve para agachar ou mesmo se deitar, podendo andar rastejando. O círculo serve para confirmações de menu e assistir cenas de Flashback dos games anteriores nas cenas atuais. Já os outros são comuns: L2 e R2 servem para trocar de itens que estejam disponíveis (o L serve parta os ítens e o R para as armas). Aqui entra outro fator interessante: os menus tem uma quantidade limitada de ítens, o que sana um velho problema da série: quando precisamos usar algum ítem temos de, às vezes, passar pela lista inteira, o que empobrece um pouco a jogatina. Com poucos ítens, o jogo ganha mais agilidade e mais estratégia, já que em determinados momentos temos de escolher a melhor combinação de itens no campo de batalha.

E também cada comando responde de forma magnífica. Tempo de resposta rápido, nenhum erro quando a gente posiciona uma câmera, e tem o radar Soliton, que só é acionado usando o Solid Eye, um dos recursos mais legais de todos os tempos em games desse tipo. É claro que a base desse segundo olho vem primeiro do Splinter Cell, onde o Sam Fisher podia colocar vários tipos de visão, desde a visão noturna (de praxe em muitos games, tanto de espionagem quanto de guerra) até mesmo um radar com detalhes do “nível de amizade/inimizade” dos inimigos. Se o inimigo tem uma barra vermelha, ele é definitivamente um inimigo. Se ele tem uma barra azul ele definitivamente é um amigo, e no começo do jogo você pode escolher um dos lados para ajudar. Ajudando um deles, você ganha a amizade deles e eles não te atacam, mas você ganha também a inimizade do outro lado.

Gustavo: Não podemos ficar sem falar do Mk2, o robôzinho carismático que Otacon empresta para Snake. Ele tem várias habilidades, como ficar invisível e atordoar guardas. Mas o mais interessante mesmo é que, quando Snake o está controlando ele usa um joystick de PlayStation!

Flausino: E o legal é que durante os Briefings de cada missão (com explicações da mesma) o jogador pode controlar o robô durante a cena, o que atesta ainda mais a qualidade técnica do jogo, podendo fazer zoom, passear pela sala dentro do avião, e outros.

Diversão e Imersão

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Gustavo: Então MGS4 é um jogo gigantesco, complexo e exigente. Logo sim, ele é imersivo. E como tal, sim, ele é divertido. De uma forma incômoda, amarga, triste, ele convence bem ao colocar o jogador no mundo de Metal Gear, e deixá-lo tão intrigado com aquela realidade, ao identificar as semelhanças com o nosso mundo real. Como todos os personagens do jogo estão envolvidos com algum confronto, é difícil imaginar como as crianças de 2014 crescem, se vão à escola ou se simplesmente se alistam nas forças armadas quando entram no primeiro grau. Hideo “Gênio” Kojima mais uma vez se excede, ao criar um mundo convincente e perturbador.

O tipo de diversão esperado é semelhante (porém em maior intensidade) ao de assistir a um filme. Você joga porque a estória começa a ficar interessante, até chegar no momento em que você PRECISA saber o que vai acontecer (como quando o Old Snake finalmente confronta cara-a-cara Liquid Ocelot). E aí a trama continua e você exclama um “CA-CE-TE”. A intensidade é maior porque, tal qual seus precursores, MGS4 quebra várias vezes a quarta parede, deixando o jogador incerto sobre os limites do jogo. Sem me arriscar a um spoiler, em uma parte Snake está cansadíssimo, após ter feito algo incrível. Basta dizer que eu também estava ofegante neste momento.

Flausino: aqui você esquece o tempo. Aqui entra uma teoria que eu vi numa reportagem da Superinteressante: você esquece o tempo enquanto joga, de tão bom que ele é. É o estado de fluxo, onde você fica ligado no jogo, como se estivesse dentro dele. É o estado de experiência máxima. Cada detalhe foi pensado pra que você fique com mais vontade de jogar e de ver o que vai acontecer. Por ser uma sequência de um jogo já consagrado e que foi muito mais jogado, quem pega um metal Gear e começa a jogar sabe como será o jogo. A mecânica permaneceu praticamente a mesma, com algumas evoluções. Quando eu jogava, eu vi que eu tinha de dormir mas não tinha muita vontade. Queria chegar logo no final, ver o resultado do enredo. Ver o que poderia acontecer. E me sentir surpreso com algumas coisas.

Finalizando

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Flausino: Metal Gear Solid 4 é um dos games que vendem consoles. É exclusivo do Playstation 3, o que faz com que os fãs acabem arrumando o console apenas para jogar o game. Também é um dos poucos jogos que a gente não vê por aí críticas relacionadas. Talvez no máximo críticas quanto ao tamanho de algumas cenas (que ultrapassam meia-hora de duração) e da questão de instalar um pouco do conteúdo do jogo no HD, o que demora um pouco na transição de cada ato. Independente disso essa é a obra-máxima da equipe do Hideo Kojima, que criaram um jogo com um poder de processamento enorme do console, com a parte técnica praticamente perfeita e enredo espetacular.

Gustavo: Metal Gear Solid 4 foi um divisor de águas desta geração. Ele foi o primeiro jogo que só poderia ser feito no console da Sony, não por motivos de licenciamento, mas por aspectos técnicos. Graficamente impressionante e com um enredo hollywoodiano, prende a atenção até o fim. Onde seu glamour é maior pode acabar sendo também sua maior falha: as cutscenes somam mais de 2h, o que pode se tornar tedioso para alguns. Também os comandos complexos podem desanimar jogadores que não derem a atenção requerida para uma real imersão no universo de Kojima. Mas MGS4 é sobre comprometimento: se você se dedica ao jogo, o jogo se dedica a você, e o presenteia com surpresas incríveis, e uma história capaz de arrancar lágrimas (de alegria e/ou tristeza).

[Algumas imagens via UOL Jogos, Gamespot e Eurogamer]