Skyrim screen


Nos últimos anos os desenvolvedores perderam o medo de relatar problemas de assédio e outros problemas como o crunch (quando ocorre excesso de trabalho), após terem surgido os primeiros relatos. E com mais pessoas que relatam os problemas, mais gente perde o medo de falar. Nesta semana o compositor de The Elder Scrolls V: Skyrim Jeremy Soule (que também foi compositor de Knights of the Old Republic e Neverwinter Nights) foi acusado de assédio sexual por pelo menos duas mulheres, e em uma delas de estupro.

O abuso aconteceu em 2009, quando a desenvolvedora independente Nathalie Lawhead estava trabalhando em um ARG para uma empresa em Vancouver, no Canadá. Ela precisava muito do emprego e das oportunidades, e na época tudo parecia incrível. Mas o “Jeremy sabia disso, e sabia da situação em que eu estava, e tomou vantagem de sua posição para fazer o que fez comigo.

Nathalie indica que o trabalho no projeto em si foi extremamente desgastante e abusivo, com horas intensas, gerência ruim e um ambiente de trabalho estressante, além de problemas que sofreu com imigração dos EUA para o Canadá.



Durante esse período ela e Soule se tornaram amigos, mas com o tempo, Soule começou a usar de sua proximidade ao CEO da empresa para ameaçar a posição de Nathalie no projeto, afirmando que ou ela ficava com “ele ou [ela estaria] fora“. Suas conversas também começaram a ficar cada mais vez mais impróprias, com discursos misóginos e machistas.

Ele estava sendo muito ameaçador e não escutava. Ele deixou claro que era ‘ele ou fora’. Ele me estuprou“, escreveu Nathalie. “Durante todo esse tempo, Jeremy agiu como uma vítima e culpou as mulheres pelas relações com ele (ou relações forçadas) pelo que estava fazendo“.

Apesar do ocorrido, Nathalie conta ainda que continuou trabalhando no projeto por necessidade. Eventualmente o ARG foi lançado, mas sem créditos para a desenvolvedora – ela conta que foi excluída do projeto pelo CEO por conta de Soule.

Uma segunda mulher, a vocalista Aeralie Brighton (Minecraft, Ori and the Blind Forest), também escreveu um post no Facebook na mesma noite revelando ter sido “presa de Jeremy Soule” ainda em 2014. No texto, ela relata situação semelhante à de Lawhead, tendo sido procurada pelo músico enquanto vivia em seu carro e tentava deslanchar a carreira de artista.

“Partiu meu coração, eu idolatrava esse cara. Parecia um conto de fadas”, disse ela ao Kotaku. “Eu me inspirava nele. Meu Deus, esse é o compositor de Skyrim e ajudou a moldar meus primeiros anos de video games!”

Em outra nota no Kotaku, Soule negou as acusações: “Essas acusações de 11 anos atrás são falsas. Estou chocado e triste por essas alegações ultrajantes terem sido feitas” No caso de Brighton, Soule disse “não concordar com o ponto de vista dela” e “não estar em liberdade de discutir” o caso.

Horas depois da primeira acusação, o músico deletou as suas contas nas redes sociais.


Após esse relato, surgiram novas denúncias de assédio. Zoe Quinn (desenvolvedora de Depression Quest e autora do livro Crash Override) postou um novo relato no Twitter acusando Alec Holowka, desenvolvedor de Aquaria, Towerfall e Night in the Woods, de abuso sexual.

Fiquei calada sobre isso por quase toda a minha carreira e não posso mais fazer isso“, escreveu Quinn, citando o relato de Lawhead como um dos motivos por trás da decisão de contar a história.

O desenvolvedor Scott Benson, que trabalhou ao lado de Holowka em Night in the Woods, afirmou que “acredita nos relatos de Zoe e nas ações de Alec” e que está “muito triste e muito irritado” com o episódio.

Após esse relato, a equipe de Night in The Woods comunicou no Twitter que cortou relações com Alec.

“Nós levamos muito a sério essas acusações. Como resultado, e após agoniantes considerações, estamos cortando relações com Alec.”

Até mesmo o desenvolvedor indie Matt Thorson da MattMakesGames (Celeste, Towerfall, Give Up Robot) se manifestou sobre o caso:

“Eu vivi e trabalhei com Alec Holowka por anos, ele foi o compositor de Towerfall. Nossa equipe cortou relações com ele anos atrás. Eu acredito e apoio Zoe. Infelizmente, baseado nas minhas experiências com Alec e com aqueles próximos a mim, eu fiquei chocado pelo relato, mas não surpreso”

https://twitter.com/MattThorson/status/1166804301391360000

Também teve mais relatos essa semana: Autumn Taylor (diretora de marketing de um estúdio de realidade virtual Owlchemy Labs), onde ela sofreu abuso do co-fundador da Oculus Michael Antonov em um evento em 2016; Adelaide Gardner, que relatou episódios de abuso físico e psicológico sofridos com Luc Shelton, programador do estúdio Splash Damage.

Alexis Kennedy, de Sunless Sea e Cultist Simulator, também foi acusado por múltiplas vítimas de assédio e comportamento abusivo ao longo dos anos, incluindo um relato de Leigh Alexander, designer de narrativa de Reigns: Her Majesty e Reigns: Game of Thrones.

https://twitter.com/leighalexander/status/1166303220991479808

Para cada agressor que você ouviu falar hoje, há mais 10 sobre os quais não podemos falar por causa das ameaças de retaliação que fizeram às vítimas, pelas quais seria inapropriado falar“, escreveu Leigh.

Também tem o relato de Nathália Fernandes (pro-player do Pokémon TCG), que sofreu violência sexual durante um torneio nos EUA, envolvendo um outro jogador brasileiro, que considerava amigo até então. Fernandes afirmou ter sido vítima de comentários inapropriados durante toda a viagem e de investidas enquanto estava dormindo, uma vez que compartilhavam o quarto.

“Recebi muito apoio de mulheres que me disseram ter sofrido coisas parecidas nesse cenário”, disse ela, que afirma sempre ter sofrido preconceito desde quando começou sua história no jogo, há oito anos, até hoje, já com renome. “No meu primeiro torneio nacional, eu tive uma partida com um homem famoso no jogo e que, antes de começarmos, comentou com um amigo que seria ‘muito fácil’ ganhar de mim, isso tudo na minha frente. No caso, fui eu quem ganhou, e ele saiu furioso, porque considerava uma vergonha ter perdido para uma mulher”, conta ela.

A repercussão da postagem, segundo Fernandes, trouxe apoio da empresa que gere o jogo, mas ela espera que esse episódio desperte um “entendimento” que atinja toda a indústria, incluindo desenvolvedores, jogadores e  streamers  – estas, aliás, ela considera as que mais costumam sofrer agressões verbais, que vêm durante as lives.

“É importante mostrar que estamos em todos os lugares. É preciso ter mais mulheres nos jogos e as empresas têm que incentivar essa participação. A maioria desses casos são feitos por pessoas com alguma influencia no ramo, então que deem atenção a isso”


Igual que foi comentado na reportagem da Revista Época, muitas pessoas sofrem silenciosas por receio de sofrerem retaliações em suas carreiras, principalmente na área de games. Preconceito, piadinhas e episódios de assédios com mulheres também são comuns no cenário nacional segundo a ilustradora e desenvolvedora Carolina Porfírio, da Kuupu, responsável por jogos como Exodemon.

“Não é porque os assédios estão vindo à tona agora que devemos acreditar que são novidade, mas eles sempre aconteceram, e é impressionante sabermos que podem ser pessoas próximas, que fazem parte do nosso círculo. O problema é que existe esse receio de falar sobre, já que há o medo de ficar marcada como ‘a menina que acusou fulano’ e sofrer retaliação, por isso não podemos culpar aquelas que decidem não falar”

[Com informações do Kotaku, The Enemy, Site de Jogos e Revista Época]