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De uns tempos pra cá, além das mentiras que rondam as redes sociais (que muitos usam o termo “fake news”) também estão rolando muitos indícios de que tempos sombrios estão por vir (além das tretas que a gente já passa), por conta de gestores tentando censurar produtos da cultura pop. De ontem pra hoje o prefeito do Rio Marcelo Crivella divulgou nas redes sociais um vídeo onde ele “determinava” que os organizadores da Bienal do Rio recolhessem uma HQ dos Vingadores “(Vingadores, a cruzada das crianças”) que estava à venda nos pavilhões do Rio Centro, onde está rolando a Bienal.

Ele alegou “conteúdo impróprio para menores”:

“Livros assim precisam estar embalados em plástico preto, lacrado, e, do lado de fora, avisando o conteúdo”, disse ele em vídeo postado na rede social. “Não é correto que elas tenham acesso precoce a assuntos que não estão de acordo com suas idades.”



Na obra, escrita por Allan Heinberg e desenhada por Jim Cheung, dois dos Jovens Vingadores, Wiccano e Hulkling, são namorados

Imediatamente após o vídeo muitas pessoas começaram a criticar o prefeito. A organização da Bienal comunicou que os exemplares do livro não serão recolhidos porque o material não é impróprio e é comercializado desde 2016 em todo o mundo sem qualquer restrição.

“A Bienal Internacional do Livro Rio, consagrada como o maior evento literário do país, dá voz a todos os públicos, sem distinção, como uma democracia deve ser. Este é um festival plural, onde todos são bem-vindos e estão representados. Inclusive, no próximo fim de semana, a Bienal do Livro terá três painéis para debater a literatura Trans e LGBTQA+. A direção do festival entende que, caso um visitante adquira uma obra que não o agrade, ele tem todo o direito de solicitar a troca do produto, como prevê o Código de Defesa do Consumidor”

Hoje cedo mesmo a HQ dos Vingadores já tinha se esgotado tanto na Bienal e no site oficial da Panini.

Durante o dia diversos fiscais da prefeitura foram vistoriar as estandes atrás de livros com conteúdo LGBTQA+. O coronel Wolney Dias, que é subsecretário de operações da Secretaria Municipal de Ordem Pública, comentou que achou “muitos livros”, mas não foi achado nenhum livro pornográfico indicado para menores de idade.

A Bienal também entrou com um mandato de segurança pra garantir o funcionamento do evento e o direito dos expositores de comercializar obras literárias sem qualquer recolhimento.

Já a prefeitura negou a censura, mas ameaçou cassar a licença da Bienal, caso o material não seja readequado.

“A Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop) notificou, na tarde desta quinta-feira, dia 5, a organização da Bienal do Livro a adequar as obras expostas na feira aos artigos 74 a 80 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que preveem lacre e a devida advertência de classificação indicativa de conteúdo em publicações com cenas impróprias a crianças e adolescentes. Em caso de descumprimento, o material sem o aviso será apreendido e o evento poderá ainda ter a licença cassada”, informou a secretaria.

A gestão Crivella diz ainda que houve reclamação de frequentadores da feira e negou que a ordem seja censura. “Não há qualquer ato de trans ou homofobia, ou qualquer tipo de censura à abordagem feita livremente pelo autor”, diz o comunicado.


As editoras condenaram as atitudes do prefeito, e divulgaram nas redes sociais posicionamentos, além de citarem diversas obras com temática LGBT+:

A censura abre um precedente perigoso. Citando a Mara, do Mais de Oito Mil:

Dito tudo isso, vale um apelo: tome MUITO cuidado com qualquer pessoa que venha apoiar esse tipo de operação. Tome também cuidado com qualquer religioso que pregue algum tipo de preconceito e ódio a alguém, em vez de promover o amor. A Censura é uma coisa muito séria, e é preocupante o precedente aberto pelo prefeito do Rio de Janeiro. Começa com um quadrinho dos Vingadores, pode chegar ao ponto de qualquer tipo de literatura que traz elementos inconvenientes às pessoas no poder ser combatida.

Não apenas literatura, mas outros produtos de cultura pop, desde games, séries de TV, etc. E com a polarização das pessoas hoje em dia, junto com as inúmeras “fake news de zap” compartilhadas, é uma época perigosa. Temos de combater todo tipo de censura na cultura pop.


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