– Você não precisa de um arco para atirar uma flecha

– Você não precisa de uma arma física para usar uma arma

– Você precisa ter foco, determinação, objetivo. E para algumas situações, um pouco de sangue nos olhos.



Ela acordou novamente naquele chão gelado. Os panos não ajudam muito a proteger do calor, apesar de que isso nunca a incomodou demais. As frases ainda continuam vívidas na sua cabeça. E novamente a recepção de todos os dias no quarto: a górgona fitando na sua direção.

– Apenas uma estátua. Apesar de sua beleza – pensou.

Ao olhar para o lado, o velho arco de guerra. Surrado, com muitas faixas de consertos. Um arco de madeira acinzentado, que sempre a acompanhou desde que teve a sua emancipação de onde morava. Parecia pouco tempo na sua cabeça desde então, mas não se lembra de quando foi. O tempo corre como as correntezas de um rio.

– Mais um dia sem conseguir uma missão de verdade – lamentou-se – E tem aquela mulher….

A estátua da górgona a fitou novamente, como se estivesse reprovando esse pensamento.

– O que você era antigamente ? Mas são apenas histórias…

Novamente vem na cabeça as histórias que escutava enquanto fazia pequenos trabalhos como caçadora. As górgonas, que moravam em lugares belos, em palácios cheios de ouro e pacíficos. Até o dia da invasão daquela mulher…que ninguém sabe o nome, ninguém sabe o que ela foi fazer lá, e ninguém comenta do assunto.

A estátua novamente a fitou em reprovação.

– São apenas histórias de assustar crianças humanas. E eu sou uma elfa.

Um trovão é escutado ao longe e começa a chover. Mais um dia no quarto com aquela estátua.

– Bora tentar mais uma vez conseguir uma missão de verdade.

Ela levantou e colocou o seu vestido. Uma armadura surrada e acinzentada, e um vestido cinza-claro, sem adornos, mas que destoa dos seus cabelos ruivos e longos. O vestido tinha algumas falhas no ombro direito, e uma manga mais longa no esquerdo. Ela coloca a armadura por cima, e veste a aljava nas costas. Ainda tinha algumas flechas.

Ao lado, algumas frutas que ela conseguiu do seu último serviço. E elas estavam no fim. Uma maçã, duas bananas e dois pedaços de pão. O pão acinzentado e quase dourado, que ela colocou em sua bolsa.

– Bom café da manhã! – disse, apontando a maçã para a estátua da górgona

A estátua a fitou novamente, mas não parecia estar reprovando ela

– Você gosta de maçãs, né, seja-lá quem foi em vida.

A chuva aumentou, mas é necessário enfrentar o mundo.

Ela pega o arco e deixa o quarto. Ao sair, a ruela continua vazia. A chuva limpa a sujeira que está nos diversos cantos da rua, mas os musgos que cresceram em volta da casa sempre permanecem. Os musgos destoam das pedras no chão da rua, onde nada crescia

– Dizem que o local é amaldiçoado e que nada vive, mas eu estou aqui. E esses musgos.

A chuva começa a rarear e cessa enquanto ela anda pela ruela até chegar na ponte de madeira. Após a ponte algumas pessoas caminham em seus afazeres diários. Alguns elfos com barracas vendem o pão dourado e acinzentado, mas o preço é alto demais.

– Sem missão, sem dinheiro, sem pão. – olhou esperançosa.

A vila é agitada, com mais pessoas chegando para negociar especiarias. As roupas delas destoam muito do seu vestido surrado e com isso ninguém a observa. Eles nunca olham ou a fitam, em reprovação.

Exceto uma.

– Seres metidos e superiores.

Mais uma caminhada diária pelas barracas, sempre perguntando se alguém tem algum serviço.

– Desculpe moça, mas você não tem experiência para o trabalho. Já contratei alguém.

– Suas roupas são fracas e seu nível de habilidade é baixo. Não tenho serviço pra você

– Se quiser pode limpar o meu estábulo. Mas só tenho algumas frutas. E se fizer o serviço direito tenho 2 pedaços de pão de Vithellas.

– Pode ser, eu topo – disse. – Preciso do pão.

– Mas me tira uma dúvida: porquê vocês se sujeitam a isso por esses pedaços de pão. Só comprar elas

– São caros, mas você os conseguiu.

– Engraçado que eu sempre barganhei com os elfos, e consigo os pãos por um preço baixo.

– Sorte sua, os outros vendedores pedem uma fortuna

– Pedem por que sabem que tem compradores abastados. Mas o que tem nesse pão ? Algum tipo de poder mágico ?

– Um pão élfico é apenas um pão élfico. Não é o que você sempre diz ?

– Já comi um deles e achei o gosto horrível. Mas você sempre vem aqui, sempre tenho o mesmo serviço, e você aceita sem reclamar. Nunca vi você reclamando.

– Melhor eu fazer logo o serviço antes que você entregue para outro, não é verdade ?

– É verdade.

Ela foi até os estábulos do vendedor e os limpou novamente. Os cavalos, sempre muito agitados, ficaram calmos à sua chegada.

– Vocês gostam de mim.

O serviço, apesar de simples, acaba precisando de algumas horas, pois ela acaba dando banho nos cavalos. Um deles, com uma corrente dourada que o prende, tinha asas e era o mais triste do local. Mas a tristeza sempre desaparecia quando ela chegava perto.

– Queria ter dinheiro para comprar você ou te libertar, mas sei que fazer isso é contra as leis. E não tenho dinheiro…

A noite chegou e ela terminou o serviço. O vendedor retornou com sacos cheios de ouro.

– Dia lucrativo – pensou, e fitou as bolsas

– Sim, foi lucrativo – comentou o vendedor, ao perceber ela olhando – Tenho uma missão para você

– Missão ?

– Sim, e para fazer imediatamente. Caso queira aceitá-la…

– Diga, quero saber! – a animação e o coração se encheu de alegria.

– Tem um ogro que está aterrorizando uma vila próxima. Mas só consigo pagar 10 moedas de ouro.

– Só isso ? Muito pouco….

– Só o que posso oferecer…

A educação a impede de retrucar o vendedor. Apenas em uma das bolsas teria pelo menos mais de 100 moedas de ouro. Mas essas 10 moedas seria muito mais do que ela já teve em muito tempo.

– Tudo bem, eu aceito.

– Não serão apenas essas 10 moedas. Venha comigo.

Ela o seguiu até a porta de sua casa, ao lado dos estábulos, e pediu para esperar. Pouco tempo depois ele retorna, com um arco.

– É um adiantamento. Se você retornar com a cabeça do ogro, o arco e as 10 moedas serão seus.

Ela fita o arco com curiosidade, que tinha duas esferas azuladas no centro de cada cabo, perto do centro. Ao pegar, percebe que é muito leve, mas com aparência frágil. Parece que o arco poderia se quebrar ao menor movimento

– Qual a qualidade desse arco ?

– Nível 2. Bem mais do que o que você tem aí com você.

– Tudo bem. Qual o prazo para o trabalho ?

– Apenas hoje à noite. Se não retornar amanhã, terei de pedir novamente a outros.

– Será feito.

Ela decide deixar o local, e ao sair começa a caminhar, analisando o novo arco. Ao parar perto de outra ruela, ela observa novamente a outra mulher, que está sentada. Os cabelos pretos e lisos destoam de suas roupas, junto com a faixa nos olhos. Ela mexe a cabeça e observou-a, com um sorriso radiante.

– Queria ter algo a oferecer pra ela – pensou, ao colocar a mão dentro da bolsa. Mas só tinha os 2 pedaços de pão élfico.

– Não sei porquê você tem dó dela – comentou em voz alta uma senhora elegante que passou perto. O sorriso da mulher desapareceu – Ela é só uma mendiga cega.

– E você é alguém sem coração – comentou, ao olhar para a senhora em reprovação.

– Você deveria se juntar a ela. Quem sabe teria mais comida do que você nunca teve. E você vive naquele quarto sujo…a gente escuta as histórias da elfa suja…

– Suja é você, sua imunda.

Ela não percebeu, mas estava com o arco apontado para ela

– Atire, e se torne uma criminosa, tal com a sua raça.

– Não somos criminosos…

Ela percebe uma mão segurando o seu pulso. A mendiga estava ao seu lado, empurrando o braço para baixo.

– Não vale a pena…não vale a pena.

– Ótimo, 2 mendigos, se juntem e fiquem longe da gente!

A senhora dá meia volta e retorna à sua caminhada. E a mendiga retornou para o seu canto, sentando novamente. Ela olha para você novamente e sorri.

– Seu sorriso é muito bonito – comentou

– Nunca sei como ele é…por não enxergar. Mas a vida é assim, a gente tem de sorrir sempre. E você não tem uma miss…

Um barulho grande cruza o ar. E ela percebeu o ogro bem na frente dela.

Uma primeira missão.

(Continua em Materialização)







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