Paganini Mixer

Nada dura para sempre. Essa frase é uma das mais usadas por muita gente, mas que ainda é difícil de assimilar para certas coisas. Nas últimas semanas tentei fazer alguns exercícios de tentativas de ter alguma vontade de fazer os pugs de raide heróica de World of Warcraft. Depois que o core da guilda que eu estava terminou – e aqui cabe um mea culpa, pois eu mesmo mal estava logando, e tinha problemas de sono ao jogar tarde da noite, nunca ficando até o fim no core, mas teve mais gente que foi desanimando com o passar dos meses – e diversos jogadores foram pra outras guildas, tentei retornar às atividades de fazer raides com pessoas desconhecidas.

O sistema de pugs do World of Warcraft supre um pouco a questão de ter um sistema interno de matchmaking manual para fazer atividades de end-game. Uma pessoa cria um grupo e depois pode ir selecionando outras e montar um grupo equilibrado. O sistema funciona para qualquer dificuldade de raide, você mesmo pode iniciar um “pug”, mas em raides míticas, só tem de juntar pessoas do mesmo servidor enquanto não termina o “hall da fama” das guildas, que é quando a Blizzard libera a dificuldade em sistemas de cross-realm (diversos servidores).

Com isso, de vez em quando, ao logar, eu tentava abrir o mural de grupos, mas por mais que tivesse horas mais favoráveis e com mais potencial de ter mais pessoas (por exemplo à noite aqui no Brasil) eu sempre deixava pra lá, fechando o game logo em seguida. Não sei dizer se a questão do tempo curtíssimo de enrage da primeira chefe do Palácio Eterno se tornou uma barreira para os casuais, ou da questão do tempo consumido nessa atividade, as raides deixaram de ter um pouco de apelo. E talvez por conta do sistema de recompensas.



Hoje em dia, as recompensas do World of Warcraft ficam em montarias, equipamentos (e transmogs), mascotes e conquistas (incluindo as proezas memoráveis). A última raide de cada expansão de World of Warcraft sempre tem uma montaria para fechar a dificuldade heróica, quase sempre com um design único, que acaba se tornando um incentivo extra, e que também gera o “mercado paralelo” de rush, onde muitas guildas usam isso pra ganhar gold extra, fazendo runs seguidas e quem não quiser se esforçar acaba pagando. Só que nesse ponto a diversão é reduzida, pois tira o apelo de desafio do game, mas tem de analisar também a questão de ter outras complicações. Às vezes o jogador tem dificuldade em jogar (coordenação motora, internet relativamente instável, ele tem de parar a todo o momento caso ele tenha filhos e só jogue casualmente) ou ele consegue farmar bastante gold ou tem muita grana ingame sobrando, e não quer perder tempo ou ter uma carga elevada de estresse para conseguir a montaria.

Mas em outras épocas da expansão, as recompensas não tem mais tanto apelo. Os equipamentos continuam a ser adquiridos nas expansões seguintes (e as raides, por si só, ficam muito mais fáceis, já que se torna apenas uma “transmog run”), pets dá pra conseguir também pelo localizador (as chances são baixas, mas pra quem tem alts, uma hora eles caem), as raides tem conquistas de cada chefe que rendem uma montaria (que também dá pra pegar em expansões seguintes) e aí sobram apenas as proezas memoráveis, que tem o “AOTC” (Acima do Normal, derrotando um chefe de raide antes de sair o próximo conteúdo de equipamentos/raides) e “Vanguarda”, no mítico. Não há uma recompensa adicional nessas conquistas, o que reduz também o apelo.

Ganhando pet em raide de World of Warcraft - Raide Palácio Eterno

Ter AOTC, para mim, está deixando um pouco de fazer sentido na questão social, já que em alguns pugs, mesmo que você tenha conseguido isso, não é garantia alguma de você entrar num grupo onde o líder pode acabar excluindo todos os brasileiros.

Mas acho que o que está pesando demais para mim é na questão do tempo consumido. É tudo uma loteria: você entra num grupo para matar um chefe específico, mas não sabe se os outros jogadores estão bem equipados, e tem classes que não tem tanto dano. Por mais que o jogador se esforce, o risco do wipe é real, e quando você percebe já passou 1, 2 horas, isso quando as pessoas começam a deixar os grupos nesse meio tempo. Ou mesmo você gastar todo esse tempo, conseguir matar o chefe e não cair 1 item sequer. O outro jogador consegue, mas acaba sendo um pensamento meio egoísta: “nossa, poderia ter sido eu a ganhar aquela arma ou equipamento, o meu elmo está tão ruizinho…”. Em cores fechados de guildas não tem esse tipo de coisa pois acaba sendo uma progressão de grupo: “opa, o cara ali joga bem e mereceu o elmo, e o dano extra pode ajudar na luta seguinte, e na próxima semana aqui será mais fácil”, e você se solidariza um pouco por saber que um amigo seu garantiu aquele loot suado.

Dois pesos, duas medidas.

Claro que hoje em dia o game te dá outras opções para conseguir se equipar, indo nas masmorras míticas+, ou tentar ir no front de guerra heróico (que dropa item 430), mas ainda recai na chance de frustração: o front é liberado a cada 1 ou 2 semanas, você entra no grupo, separa aqueles 40 minutos, pra no final cair o MESMO equipamento que você já tinha. A frustração pelo tempo perdido se torna enorme, e aqui talvez poderia ser interessante que, se caísse um item repetido (nas atividades onde você não passaria o item pra alguém, como recompensas de missões), viesse um token pra poder criar um equipamento diferente. E ainda tem a questão do sistema de azerita, que veio cercado de reclamações: quando é necessário você ter de farmar apenas um certo equipamento de uma masmorra, mostra que o sistema se tornou muito mais uma conta matemática de raide, mas que consome demais o tempo do jogador, e se torna meio punitivo. E a diversão é diluída, aumentando as chances do jogador optar por mudar de jogo.

Na semana passada eu finalizei a raide do Palácio Eterno no localizador casual, ao enfrentar o Za’qul e a Rainha Azshara. Não joguei a raide completa na dificuldade, mas na dificuldade normal já tinha chegado até o Za’qul, e me dei por satisfeito por conhecer a luta, que foi um momento bem interessante. Foi uma luta que tinha um pouco de “lore” embutida, com Azshara executando o seu plano final durante a luta. Não vou comentar muito por ser spoiler, mas vale dar uma conferida na luta, mesmo no localizador, ou no normal.

Finalizando a raide Palácio Eterno no World of Warcraft BFA

Mas não sei se pretendo tentar jogar heróico. Antigamente era mais fácil quando você tinha mais gente conhecida pra jogar, mas a galera foi desanimando, o World of Warcraft se tornou um pouco punitivo, repetitivo (já que pra finalizar uma raide em dificuldade elevada você acaba levando semanas, matando os mesmos chefes várias vezes) e hoje em dia as pessoas deixam de ter tanto tempo livre.

Mas tem uma questão que antigamente não entrava tanto nas rodas de discussões: anos atrás o acesso aos videogames não era tão facilitado. Pode parecer estranho comentar isso, mas no PC, a oferta de games gratuitos era menor hoje em dia, e acaba sendo muito mais fácil migrar para um Fortnite, o Apex Legends ou no League of Legends, ou o jogador consegue melhorar o poder aquisitivo, melhora o PC e testa outros games do gênero, como o Elder Scrolls Online e o Final Fantasy XIV. Mas quando o jogador vê que o tempo que ele gasta num dá retorno e se torna frustração, ele começa a se questionar até que ponto vale a pena continuar. E aí chega a hora de mudar de ares, em outros jogos ou mesmo no World of Warcraft, talvez fazendo missões de história aos poucos, batalhas de mascotes, upar um personagem novo ou fazer PvP, mas essa última pode ser bem frustrante.